As adolescências no filme Barbie

Foto: Warner – Divulgação

Barbie (2023) é um filme que causou muita expectativa antes mesmo de sair um trailer. A boneca e seu mundo cor-de-rosa esteve na infância da maioria dos adultos – seja porque teve, seja porque não teve.

Já vi críticas e análises sobre o filme de Greta Gerwig abordando a depressão, o empoderamento feminino, a busca pelo ideal de corpo e até memes com Jacques Lacan (ou Laken?). Neste texto eu pretendo trazer uma visão de Barbie relacionada à adolescência.

—– Contém spoilers —–

Adolescência e as fases do desenvolvimento psicossexual

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a adolescência ocorre entre 10 e 20 anos. É um período marcado pelas mudanças físicas, mentais, comportamentais e psíquicas. Para a psicanálise, a adolescência trata do final do período de latência, uma das fases de desenvolvimento psicossexual que começa entre 3 e 5 anos.

Em resumo, as fases de desenvolvimento psicossexual, definida por Freud, são: oral (mais ou menos até o desmame), anal (mais ou menos até o desfralde), fálica (mais ou menos até 4 anos, onde geralmente ocorre a castração), período de latência (até a adolescência) e fase genital, que vai até o final da vida. As faixas de idade cronológica são apenas referências, pois a psicanálise trabalha com o tempo lógico, onde a passagem pelas fases é muito individual – alguns mais cedo, alguns mais tarde e alguns podem regredir para uma fase anterior.

A transição entre o período de latência e a fase genital é o momento de despertar da libido, que adormece depois de uma intensa atividade até a castração. É aqui que acontece a adolescência.

As adolescências retratadas no filme Barbie

Barbie Estereotipada, a Barbie Perfeita, um dia pensa na morte e, com isso, todo o seu mundo perfeito começa a se transformar. É um momento muito parecido com o início da adolescência, a chamada puberdade. Barbie percebe que a infância está acabando e começa a questionar sua identidade, seu propósito, seu corpo. Com isso vem o luto (retratado no filme como depressão) pela perda da infância e do mundo cor-de-rosa em que vivia. Barbie percebe as mudanças do seu corpo e nos seus pensamentos, ela quer entender o que está acontecendo e decide ir para o mundo real em busca de respostas.

Com ela segue Ken, outro personagem que está saindo do período de latência. Para ele, o despertar da libido chega com o interesse sexual pela sua namorada, a Barbie. Ele não sabe bem o que é, não sabe o que fazer com esse interesse, assim como os adolescentes quando começam a pensar e a descobrir a sexualidade. Curiosamente, no cartaz de divulgação do filme há a frase “Ela é tudo. Ele é só o Ken”. Ser tratado como inferior pode despertar sentimentos como raiva, tristeza, frustração.

Ao procurar a sua dona no mundo real, Barbie se decepciona porque Sacha, que também está atravessando a adolescência, não quer mais a sua boneca. E não é só pelo brincar, mas também pelo que a Barbie pode representar para as mulheres: a obrigação de ter um corpo perfeito. Sacha e suas amigas desprezam a Barbie porque a veem como um brinquedo e, ao mesmo tempo, como uma mulher adulta idealizada e imposta pela sociedade. Há também uma revolta, atitude que também pode surgir na adolescência.

Por outro lado, Gloria, mãe de Sacha, é quem estava com a Barbie e causou o pensamento de morte que foi o início da jornada da Barbie. Gloria não quis doar a Barbie junto com os outros brinquedos da filha e passou a fazer desenhos com a boneca como forma de expressar os seus sentimentos. Com a adolescência da filha, Gloria se sentia afastada de Sacha, o que geralmente acontece com os pais de adolescentes. Gloria encontrou na boneca uma companhia para esse atravessamento e uma forma de reviver a sua própria adolescência.

Enquanto isso, Ken se depara com um mundo real predominantemente masculino e acredita que o patriarcado é a solução para a Barbielândia. Sem saber exatamente o que significa o patriarcado, Ken provoca uma mudança de poder e traz a agressividade, a relação de submissão das mulheres e a disputa entre os próprios Kens. Todos esses comportamentos e pensamentos também fazem parte da adolescência.

Já o Allan aparece como um boneco diferente: ele não é um Ken e tem mais proximidade com as Barbies. Como não temos muitas cenas para analisar, uma das leituras que podemos trazer é que Allan estaria formando sua identidade de gênero.

Conclusão

As adolescências retratadas no filme (Barbies, Kens, Sacha, Allan) e as regressões à adolescência (Gloria, diretores da Mattel) nos mostram que a vivência desse período é complexa, repleta de novos sentimentos e emoções que se juntam a um novo corpo. É a fase de consolidação da psique, das escolhas, da identidade e de muitos questionamentos. Novos temas surgem na vida do indivíduo, que até então só vivia para brincar e estudar: responsabilidade, relação de poder, seu lugar no mundo, propósito. E esse momento intenso traz também muitos desafios para a família, amigos, professores e outros grupos frequentados pelos adolescentes.

O final bastante significativo de Barbie, que escolhe encarar o mundo real e entra na fase genital (simbolizado pela consulta com a ginecologista), mostra um atravessamento da adolescência bem-sucedido. Enquanto os Kens e as outras Barbies talvez ainda não estejam prontos para iniciar a fase adulta e escolhem permanecer na Barbielândia.

A adolescência é universal, mas cada indivíduo vai vivenciá-la à sua maneira, no seu tempo.

Para saber mais

Para saber como a psicanálise pode ajudar a/o adolescente a atravessar essa fase tão importante da vida, entre em contato e agende uma consulta: AGENDAR.

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