Autoconhecimento Através da Psicanálise: Não É Preciso Estar Doente para Procurar Terapia

A busca por terapia, seja psicanálise ou outra abordagem psicoterapêutica, geralmente surge quando enfrentamos desafios emocionais ou sintomas que impactam negativamente nosso bem-estar. Ansiedade, depressão, estresse, conflitos nos relacionamentos e desequilíbrio emocional são queixas comuns que levam as pessoas a procurar ajuda profissional. No entanto, nos dias de hoje, é cada vez mais frequente recebermos em nossos consultórios indivíduos que não apresentam demandas claras, sintomas aparentes ou que não percebem algo específico fora do lugar.

Quando indagados sobre o que os motivou a buscar a terapia, a resposta surpreendente é: “Quero me conhecer”. Isso nos leva a questionar: é possível realizar psicanálise para fins de autoconhecimento, mesmo na ausência de uma queixa aparente? A resposta é afirmativa – é possível, e, mais do que isso, é muito valioso.

A ideia de que é necessário estar “doente” para procurar a psicanálise é um equívoco comum. A psicanálise, enquanto ferramenta terapêutica, vai além da resolução de sintomas evidentes. Ela se propõe a investigar as camadas mais profundas da mente, identificando aspectos muitas vezes inconscientes que influenciam nosso comportamento, pensamentos e emoções.

Aqueles que buscam a psicanálise para autoconhecimento estão reconhecendo a importância de entender as complexidades de sua própria psique. Mesmo na aparente ausência de uma queixa, a psicanálise pode revelar questões ocultas que afetam a vida cotidiana. Afinal, a queixa pode existir, mas não estar clara de imediato.

A falta de autoconhecimento pode resultar em insegurança, repetição de erros, procrastinação, desmotivação e frustração. Além disso, pode levar à perda de oportunidades, baixa autoestima e pouca autoconfiança. Ignorar as nuances do próprio eu pode contribuir para o desenvolvimento de padrões autodestrutivos e dificultar a construção de relacionamentos saudáveis.

A psicanálise é uma técnica terapêutica muito indicada para a exploração e compreensão de si mesmo. Ela oferece um espaço seguro e acolhedor para investigar as áreas da psique que muitas vezes permanecem escondidas. Ao identificar e compreender os conteúdos inconscientes, o indivíduo ganha maior clareza sobre suas motivações, desejos e padrões de comportamento.

A decisão de iniciar a psicanálise motivado pelo simples interesse em si mesmo é louvável. O desejo de se conhecer melhor é um impulso saudável que pode conduzir a uma vida mais plena e satisfatória. O processo psicanalítico, mesmo na ausência de sintomas aparentes, proporciona um espaço para a autorreflexão, o autoentendimento e a promoção do crescimento pessoal.

A busca pela psicanálise não deve ser exclusivamente reservada para momentos de crise. Querer se conhecer é um motivo válido e, muitas vezes, um primeiro passo para uma jornada de autodescoberta que pode enriquecer todas as áreas da vida.

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A personalidade Borderline – vivendo intensamente

A personalidade borderline ou limítrofe é um tema complexo e muitas vezes mal compreendido. Pessoas com essa condição vivem uma montanha-russa de emoções intensas e instáveis, o que pode ser extremamente desafiador para elas e para aqueles ao seu redor. Neste texto, vamos explorar as características da personalidade borderline e discutir como a psicanálise pode oferecer ajuda para encontrar estabilidade emocional.

A montanha-russa emocional

Pessoas com personalidade ou traços borderline experimentam emoções de forma intensa e frequentemente incontrolável. Elas podem alternar entre raiva, irritação, insatisfação e uma sensação de vazio constante. Essa instabilidade emocional pode levar a conflitos nas relações, com cobranças, tentativas de controle e um medo profundo do abandono e da rejeição. É como estar em uma montanha-russa de sentimentos com seus altos e baixos, momentos de apreensão e muitas surpresas.

Comportamentos associados ao Borderline

A personalidade borderline ou limítrofe se manifesta de várias maneiras, e compreender esses comportamentos é fundamental para oferecer um suporte adequado. Essas são algumas das características encontradas nas pessoas com personalidade ou traços borderline:

Medo do abandono ou da rejeição – forte medo de ser abandonado ou de perder alguém ou algo muito importante;

Impulsividade – costumam tomar decisões e executar ações sem pensar muito, no ímpeto;

Sensação de vazio constante – sentimento crônico de vazio que não pode ser preenchido;

Irritabilidade – quase tudo causa irritação, raiva e , em alguns momentos, acessos de agressividade;

Possessividade e controle – muito ciúmes e desconfiança;

Intensidade e instabilidade – emoções intensas e muitas vezes extremas e dramáticas;

Eternamente insatisfeita – quase nada está bom, sentimento de que tudo é insuficiente;

Comportamento “quero ajuda / não quero ajuda” – buscam ajuda, mas podem resistir a ela quando se sentem sufocados ou controlados.

A importância da Psicanálise

A psicanálise é uma ótima abordagem para tratar a personalidade borderline. Em vez de apenas tratar os sintomas, a psicanálise busca entender as causas do sofrimento emocional. Aqui estão algumas maneiras pelas quais a psicanálise pode ajudar:

Escuta empática: A psicanálise oferece escuta e acolhimento à pessoa que se encontra em desequilíbrio e isso é feito em ambiente seguro e sem julgamento.

Exploração da história pessoal: Através da análise da história pessoal, a psicanálise pode ajudar a identificar eventos ou traumas que contribuíram para a formação da personalidade borderline.

Compreensão das defesas: A psicanálise ajuda a pessoa a reconhecer e compreender as defesas que está usando e que podem impedir que ela perceba os seus padrões de comportamento.

Promoção da autorreflexão: Através da psicanálise, o indivíduo pode aprender a refletir sobre seu próprio comportamento e suas relações, ganhando uma compreensão de si mesmo e dos outros.

Abordagem além do transtorno: A psicanálise não se concentra apenas nos sintomas, mas aborda a pessoa como um todo, trabalhando para melhorar o equilíbrio emocional e promover o crescimento pessoal.

Conclusão

A personalidade borderline é desafiadora, tanto para aqueles que a vivenciam quanto para os que estão ao redor. No entanto, a psicanálise oferece uma abordagem valiosa para entender e tratar essa condição. Ao explorar as raízes e as características da personalidade borderline, a psicanálise ajuda a promover a estabilidade emocional e o crescimento pessoal.

Se você ou alguém que você conhece lida com a personalidade borderline, lembre-se de que a ajuda está disponível. Através da psicanálise e do apoio adequado, é possível viver uma vida mais equilibrada e satisfatória. A compreensão e a aceitação desempenham um papel fundamental nessa jornada, e a psicanálise pode ser uma ferramenta poderosa nesse processo de autodescoberta.

Conversas que salvam vidas – live Zenklub

Essa live fez parte da campanha do Setembro Amarelo do Zenklub, cujo tema foi “Verbos que Salvam Vidas”.

Falo sobre os obstáculos que nos impedem de conversar sobre nossos sentimentos e emoções e como superá-los.

Também falo sobre a importância de conhecer o outro e assim pode observar mudanças de comportamento que podem ser sinais de que algo não vai bem.

Menopausa – fim da menstruação e início de uma nova vida

A menopausa é o momento do qual nenhuma mulher que menstrua escapa. Ela pode chegar por alguns caminhos, como doenças e tratamentos, mas chega principalmente pela idade.

Popularmente chamamos de menopausa o período que compreende o climatério (ou perimenopausa), a menopausa (fim da menstruação) e a pós-menopausa. É uma fase marcada por mudanças físicas, hormonais e também emocionais.

Por um lado, podem ocorrer uma série de sintomas desagradáveis: ondas de calor, oscilações de humor, insônia, flacidez, queda de cabelo. Por outro lado, a menopausa pode trazer também sentimentos positivos como a liberdade, o alívio, aumento da motivação e da força de vontade.

Há quem veja como a proximidade do fim da vida. Há quem veja como o início de uma vida plena, produtiva e feliz.

Cada mulher vai atravessar essa fase de uma forma. O que cada uma viveu, sentiu, viu e ouviu vai influenciar a maneira de encarar essa fase.

Fazer terapia neste momento é bastante indicado, já que podem aparecer sinais de ansiedade, depressão, angústias, conflitos nos relacionamentos, crises existenciais, dúvidas e incertezas.

A psicanálise é um método terapêutico que pode trazer bem-estar e compreensão dos sentimentos e efeitos da menopausa. Percorrer a história e refletir sobre ela pode ajudar a descobrir formas de lidar com os sintomas emocionais e atravessar a menopausa com equilíbrio, e assim poder aproveitar bem toda a vida que tem pela frente.

Você está passando por essa fase? Conhece alguém que está vivendo a menopausa? Agende uma entrevista e descubra como a psicanálise pode ajudar a atravessar a menopausa de uma forma mais tranquila.

O psicanalista é como um arqueólogo

Freud, no seu texto seminal “Construções em Análise” de 1937, estabelece uma analogia entre o trabalho do psicanalista e o de um arqueólogo. Essa comparação é uma maneira de destacar a complexidade da psicanálise como um processo de escavação na mente humana em busca de fragmentos da história individual esquecidos e enterrados no passado, análogos aos achados arqueológicos que ajudam a elucidar a história da civilização humana.

Assim como um arqueólogo escava camadas de solo em busca de vestígios do passado, o psicanalista tem a tarefa de escavar as profundezas da psique do paciente. A missão do psicanalista, entretanto, é descobrir os eventos e experiências ocultos na infância que são as bases para repressões, inibições, sintomas e angústias que atormentam o indivíduo. Em vez de desenterrar artefatos antigos, o psicanalista busca desenterrar as memórias e emoções reprimidas que moldam a personalidade e influenciam no comportamento do analisando.

Recordar, como Freud nos ensinou, é uma tarefa desafiadora e, frequentemente, nossa história pessoal está repleta de lacunas. É nesse ponto que o papel do psicanalista se torna fundamental. Ele atua como um guia hábil, auxiliando o paciente a preencher essas lacunas com os insights e informações falados durante as sessões. Esse processo envolve uma variedade de técnicas, incluindo associações livres, interpretação de sonhos, análise de atos falhos, compreensão de chistes e exploração das repetições de padrões nas relações afetivas.

O psicanalista se baseia nas pistas e indicações fornecidas pelo paciente para ajudá-lo a montar uma narrativa coerente dos anos esquecidos. No entanto, essa tarefa de reconstrução, embora comparável ao trabalho do arqueólogo, possui uma diferença fundamental. Para o arqueólogo, a reconstrução é o objetivo final, permitindo a compreensão de uma civilização antiga. Para o psicanalista, a reconstrução é apenas o ponto de partida em um processo muito mais amplo de análise.

A verdadeira essência da psicanálise reside na análise crítica e na compreensão das causas inconscientes do desequilíbrio emocional, dos conflitos internos e do sofrimento psíquico do paciente. É a exploração minuciosa da história reconstruída que desbloqueia os segredos do passado, revelando as origens das dificuldades do indivíduo. Nesse sentido, a análise da história é a chave que abre as portas para uma vida mais equilibrada e consciente.

O trabalho do psicanalista, assim como o do arqueólogo, é um exercício profundo de descoberta e compreensão. No entanto, ao mergulhar nas profundezas da mente humana, o psicanalista busca não apenas reconstruir o passado, mas também iluminar o presente e o futuro do paciente, auxiliando-o a desenvolver as ferramentas necessárias para superar os desafios emocionais e viver uma vida mais plena e autêntica.

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O Mapeador de Ausências – Mia Couto

“Li em algum lugar que a eficiência da mentira diz mais da ingenuidade do enganado do que da arte do mentiroso.”

Mia Couto – O Mapeador de Ausências

O escritor Diogo Santiago retorna à Beira / Moçambique,  sua terra natal para receber uma homenagem. Só que essa também é uma oportunidade para reconstruir a sua história e a da sua família.

Ele tem algumas lembranças,  mas essas não são suficientes. Ele tem que mapear as ausências, os pedaços do passado que ele não lembra ou desconhece, para poder escrever a sua história.

Diogo recebe uma caixa com documentos, cartas e diários, escritos por outras pessoas e por ele mesmo na adolescência. É assim que ele pretende juntar os pedaços do seu passado e conhecer sua história completa.

Essa leitura me trouxe uma reflexão: será que é possível conhecer o nosso passado pela visão de outras pessoas? Conseguimos montar um quebra-cabeça juntando o que lembramos com o que nos é contado?

Dizem que “quem conta um conto aumenta um ponto”. Eu acredito nisso.

Cada um vai dar ênfase ao que mais faz sentido para ele. Cada um pode recriar ou inventar algo, de acordo com seu interesse. Cada um pode omitir algo que o machuca ou pode prejudicar alguém.

É super comum, em início de tratamento, o analisando consultar sua família para relembrar fatos do passado. E isso é válido, desde que essas peças se encaixem bem com as memórias que o analisando já tem.

É preciso considerar que as versões do outro podem conter elementos que dizem respeito somente a ele, e que não se ajustam com aquilo que o analisando já sabe.

Um mesmo acontecimento é visto, sentido e interpretado de formas diferentes por cada um que participou do momento. Uma história não se faz só de lembranças, mas também de sentimentos, fantasias e relações. Tudo muito subjetivo e singular.

Vale a pena ouvir tudo o que contam sobre nós, mas é importante que isso passe pelo nosso filtro, como se fosse um controle de qualidade. Para ser montado, um quebra-cabeças precisa ter todas as peças que se encaixam perfeitamente.

A psicanálise é uma técnica terapêutica que pode ajudar a mapear as ausências da memória,  trazendo conteúdos inconscientes para se juntar às lembranças que temos ou que ouvimos de outras pessoas. Assim conseguimos ter as peças que se juntam para montar a nossa.

Nossa história e a psicanálise

A nossa história tem duas versões: a da memória e a do inconsciente. É como um iceberg, onde você vê uma pequena parte dele (a memória) e nem imagina o tamanho da parte submersa (o inconsciente).

Podemos lembrar de muita coisa, mas não tudo. O que a nossa memória guarda nunca será suficiente para contar a nossa história. A memória tem limite, ela pode falhar, ela pode se enganar.

A versão do inconsciente é mais completa, só que é a mais difícil de acessar. No inconsciente estão os fatos, as lembranças e o que sentimos. Só que estão misturados e fora da linha do tempo. Tudo o que está lá não é organizado e fica junto com desejos, sonhos, coisas que imaginamos, coisas que gostaríamos que tivessem acontecido. E também muitas coisas difíceis, que recalcamos e não queremos nem saber delas.

Não lembramos do que está inconsciente, mas este conteúdo está o tempo todo influenciando nossa vida, nosso comportamento, nossas relações.

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As adolescências no filme Barbie

Foto: Warner – Divulgação

Barbie (2023) é um filme que causou muita expectativa antes mesmo de sair um trailer. A boneca e seu mundo cor-de-rosa esteve na infância da maioria dos adultos – seja porque teve, seja porque não teve.

Já vi críticas e análises sobre o filme de Greta Gerwig abordando a depressão, o empoderamento feminino, a busca pelo ideal de corpo e até memes com Jacques Lacan (ou Laken?). Neste texto eu pretendo trazer uma visão de Barbie relacionada à adolescência.

—– Contém spoilers —–

Adolescência e as fases do desenvolvimento psicossexual

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a adolescência ocorre entre 10 e 20 anos. É um período marcado pelas mudanças físicas, mentais, comportamentais e psíquicas. Para a psicanálise, a adolescência trata do final do período de latência, uma das fases de desenvolvimento psicossexual que começa entre 3 e 5 anos.

Em resumo, as fases de desenvolvimento psicossexual, definida por Freud, são: oral (mais ou menos até o desmame), anal (mais ou menos até o desfralde), fálica (mais ou menos até 4 anos, onde geralmente ocorre a castração), período de latência (até a adolescência) e fase genital, que vai até o final da vida. As faixas de idade cronológica são apenas referências, pois a psicanálise trabalha com o tempo lógico, onde a passagem pelas fases é muito individual – alguns mais cedo, alguns mais tarde e alguns podem regredir para uma fase anterior.

A transição entre o período de latência e a fase genital é o momento de despertar da libido, que adormece depois de uma intensa atividade até a castração. É aqui que acontece a adolescência.

As adolescências retratadas no filme Barbie

Barbie Estereotipada, a Barbie Perfeita, um dia pensa na morte e, com isso, todo o seu mundo perfeito começa a se transformar. É um momento muito parecido com o início da adolescência, a chamada puberdade. Barbie percebe que a infância está acabando e começa a questionar sua identidade, seu propósito, seu corpo. Com isso vem o luto (retratado no filme como depressão) pela perda da infância e do mundo cor-de-rosa em que vivia. Barbie percebe as mudanças do seu corpo e nos seus pensamentos, ela quer entender o que está acontecendo e decide ir para o mundo real em busca de respostas.

Com ela segue Ken, outro personagem que está saindo do período de latência. Para ele, o despertar da libido chega com o interesse sexual pela sua namorada, a Barbie. Ele não sabe bem o que é, não sabe o que fazer com esse interesse, assim como os adolescentes quando começam a pensar e a descobrir a sexualidade. Curiosamente, no cartaz de divulgação do filme há a frase “Ela é tudo. Ele é só o Ken”. Ser tratado como inferior pode despertar sentimentos como raiva, tristeza, frustração.

Ao procurar a sua dona no mundo real, Barbie se decepciona porque Sacha, que também está atravessando a adolescência, não quer mais a sua boneca. E não é só pelo brincar, mas também pelo que a Barbie pode representar para as mulheres: a obrigação de ter um corpo perfeito. Sacha e suas amigas desprezam a Barbie porque a veem como um brinquedo e, ao mesmo tempo, como uma mulher adulta idealizada e imposta pela sociedade. Há também uma revolta, atitude que também pode surgir na adolescência.

Por outro lado, Gloria, mãe de Sacha, é quem estava com a Barbie e causou o pensamento de morte que foi o início da jornada da Barbie. Gloria não quis doar a Barbie junto com os outros brinquedos da filha e passou a fazer desenhos com a boneca como forma de expressar os seus sentimentos. Com a adolescência da filha, Gloria se sentia afastada de Sacha, o que geralmente acontece com os pais de adolescentes. Gloria encontrou na boneca uma companhia para esse atravessamento e uma forma de reviver a sua própria adolescência.

Enquanto isso, Ken se depara com um mundo real predominantemente masculino e acredita que o patriarcado é a solução para a Barbielândia. Sem saber exatamente o que significa o patriarcado, Ken provoca uma mudança de poder e traz a agressividade, a relação de submissão das mulheres e a disputa entre os próprios Kens. Todos esses comportamentos e pensamentos também fazem parte da adolescência.

Já o Allan aparece como um boneco diferente: ele não é um Ken e tem mais proximidade com as Barbies. Como não temos muitas cenas para analisar, uma das leituras que podemos trazer é que Allan estaria formando sua identidade de gênero.

Conclusão

As adolescências retratadas no filme (Barbies, Kens, Sacha, Allan) e as regressões à adolescência (Gloria, diretores da Mattel) nos mostram que a vivência desse período é complexa, repleta de novos sentimentos e emoções que se juntam a um novo corpo. É a fase de consolidação da psique, das escolhas, da identidade e de muitos questionamentos. Novos temas surgem na vida do indivíduo, que até então só vivia para brincar e estudar: responsabilidade, relação de poder, seu lugar no mundo, propósito. E esse momento intenso traz também muitos desafios para a família, amigos, professores e outros grupos frequentados pelos adolescentes.

O final bastante significativo de Barbie, que escolhe encarar o mundo real e entra na fase genital (simbolizado pela consulta com a ginecologista), mostra um atravessamento da adolescência bem-sucedido. Enquanto os Kens e as outras Barbies talvez ainda não estejam prontos para iniciar a fase adulta e escolhem permanecer na Barbielândia.

A adolescência é universal, mas cada indivíduo vai vivenciá-la à sua maneira, no seu tempo.

Para saber mais

Para saber como a psicanálise pode ajudar a/o adolescente a atravessar essa fase tão importante da vida, entre em contato e agende uma consulta: AGENDAR.

Vamos falar sobre a inveja

A Patologização de Adolescentes

Patologização é uma expressão utilizada para descrever o processo de associar vivências, situações e expressões humanas a alguma doença ou transtorno. E, muitas vezes, é a forma que encontramos de justificar o comportamento de alguém: “ele é assim porque deve ter um transtorno”.

Colocamos rótulos, muitas vezes sem fundamento, como nestes exemplos:

  • Ele/a vive triste, deve ter depressão
  • Ele/a se irrita facilmente, deve ter ansiedade
  • Ele/a não me obedece, deve ter TOD (Transtorno Opositor Desafiador)
  • Ele/a não consegue se concentrar, deve ter TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)

Crianças e adolescentes são os grupos mais patologizados da atualidade. Por estarem em períodos de formação e de mudanças – biológicas e psíquicas – os comportamentos e reações oscilam muito, o que faz com que muitos adultos tenham dificuldade para lidar com esses jovens.

No caso dos adolescentes as mudanças são ainda mais impactantes pois esse é um período de definições, escolhas e renúncias. Por mais que todos os adultos tenham passado pela adolescência, cada indivíduo a experimentou de forma diferente.

Os adolescentes de hoje vivenciam as mesmas mudanças que as gerações anteriores, mas acrescidas de conflitos contemporâneos que os adultos muitas vezes não conseguem compreender.

Questões de identidade, gênero, orientação sexual, sentimentos ambivalentes (amor/ódio), alterações no corpo, mudanças (escola, bairro, cidade), separação dos pais, luto, escolha da profissão e início da vida profissional, entre outras, são atravessadas nesta fase.

Por isso é tão importante olhar e escutar a/o adolescente atual na sua individualidade, acolhendo seus conflitos e suas angústias sem julgamento e, principalmente, sem a patologização.

Isso exige empatia, paciência e interesse genuíno o que, muitas vezes, pela correria do dia-a-dia, os parentes, professores e amigos não conseguem oferecer a(o) adolescente.

Nestes casos em que não é possível ajudar diretamente o adolescente, o que pode (e talvez deva) ser feito é procurar uma orientação profissional – médica ou psicoterápica.

A psicanálise é um processo terapêutico bastante indicado para adolescentes. A psicanalista oferece uma escuta atenta e empática, sem confrontar, questionar ou duvidar do indivíduo. Além disso, a psicanalista não vai dizer a(o) adolescente o que ele precisa fazer. Ela vai acolher, escutar, trazer reflexões e ajudá-lo a atravessar esse momento tão transformador na vida do ser humano.

Quando falamos em patologizar, estamos nos referindo ao diagnóstico “selvagem”, sem base médica ou psicológica, que infelizmente acontece (e muito) nos dias de hoje,

Existem, claro, adolescentes depressivos, ansiosos, com TOD ou TDAH. Cabe ao médico psiquiatra ou neurologista diagnosticar e, se necessário propor tratamentos para estes casos. Os adolescentes que foram diagnosticados com esses transtornos também podem se beneficiar da psicanálise. Um tratamento multidisciplinar pode contribuir para que a adolescência seja um período um pouco mais leve para a pessoa.