Ted Lasso | 3+1 pontos psicanalisados

Fonte: Apple TV divulgação

Ted Lasso foi a melhor série que assisti nos últimos tempos. É leve, divertida, traz reflexões e tem um conteúdo ótimo para psicanalisar rs.

Ted Lasso é um treinador de futebol americano (football) que é contratado para treinar um time inglês de futebol (soccer), o AFC Richmond. Durante as 3 temporadas, tanto da série quanto do campeonato inglês, há vitórias, derrotas, quedas, superação. E as histórias paralelas dos jogadores, da dona do time, da relações públicas e dos outros treinadores. Só pelo entretenimento já vale a pena assistir.

Pensando como psicanalista, a série me trouxe 3 pontos de reflexão:

1. Relação filho-pai e pai-filho: as histórias dos personagens masculinos, em algum momento da série, passam por essa relação – conflitos, ausências, cobranças, incentivos, influências positivas ou negativas na vida de cada um. O personagem Ted Lasso traz essa relação não só na sua história pessoal, mas também no dia-a-dia com os jogadores.

2. Grupo e pertencimento: a maioria dos jogadores está longe de suas famílias, amigos e do seus países. Quando se encontram em um grupo com interesses em comum, mesmo os inicialmente mais fechados ou “estrelas”, acontece a identificação e o desenvolvimento de uma rede de apoio emocional. Assim, vemos os jogadores e técnicos juntos em vários momentos (datas comemorativas, jantares de família, saídas durante a concentração).

3. Empatia e empoderamento feminino: a sororidade representa um papel importantíssimo nas vidas das mulheres da trama. Entre elas há escuta, conselhos, ajuda, respeito aos momentos “não quero falar com ninguém”. Amizade verdadeira, diferente de outras séries e filmes que trazem mulheres geralmente como rivais. Assim como os homens, elas crescem muito durante as três temporadas.

Ted Lasso está disponível na Apple TV.

Reflexões sobre o vazio

Sentimos, mas não sabemos como e nem porquê. Não sabemos nem mesmo descrevê-lo e isso costuma causar angústia, preocupação ou tédio.

Geralmente não suportamos o vazio e procuramos preenchê-lo nos ocupando demais, comendo demais ou dormindo demais. Ou então começamos a criar fantasias para parar de pensar no vazio, tentamos encontrar uma forma de fugir dele.

A melhor forma de lidar com o vazio não é fingir que ele não existe. É importante sentir o vazio, tentar identificar os momentos em que ele aparece com mais intensidade, tentar falar sobre ele.

O vazio aparece onde há falta. Onde sempre faltou ou onde, um dia, ele foi excessivamente preenchido.

A psicanálise é uma abordagem terapêutica conhecida como “cura pela fala”. Falar sobre o vazio que se sente é uma das formas de conseguir reconhecer e lidar melhor com o vazio.

Sobre a procrastinação

Procrastinação é a arte de deixar para depois o que deveria fazer agora.

Ela aparece quando estamos diante de tarefas chatas, difíceis ou demoradas. É quando escolhemos, naquele momento, fazer algo mais legal ou nos distrair com alguma coisa.

Sabemos das consequências – atrasos, correria, objetivos não atingidos – e ainda assim simplesmente não conseguimos fazer o que precisa ser feito.

Há muitas teorias comportamentais que abordam a procrastinação, muitas com exercícios e reflexões para desenvolver a disciplina e automotivação. E elas podem funcionar de maneira paliativa.

Quando colocamos a procrastinação sob o olhar da psicanálise, percebemos que não é uma questão de preguiça, indisciplina ou falta de força de vontade.

Freud abordou o tema na teoria do princípio do prazer, mostrando que tendemos a buscar o prazer imediato e evitar o desconforto. Por isso evitamos tarefas que nos geram ansiedade ou exigem um esforço maior e vamos atrás de uma distração ou de uma alívio momentâneo.

Também costumamos adiar tarefas complexas e demoradas, geralmente por medo de fracassar.

A psicanálise nos mostra que a procrastinação é uma manifestação inconsciente resultante dos conflitos psíquicos que enfrentamos e dos desejos que nem mesmo conhecemos.